A casa das memórias: segredos, obsessão e as marcas do passado em um romance sáfico
A casa das memórias, lançado pela Editora Astral Cultural, é o aclamado romance da autora Yael van der Wouden, vencedora do prestigiado Women’s Prize for Fiction. Ambientado na Holanda pós-guerra, o livro entrega um romance dramático sáfico, psicológico e avassalador que combina o peso da memória histórica, o isolamento e uma atração avassaladora e perigosa.
A trama se passa em 1961 e acompanha Isabel, que leva uma vida de absoluto isolamento na antiga residência de sua família. Em sua rotina pacata, ela nutre um cuidado obsessivo pela ordem e pela preservação dos objetos que pertenceram à sua falecida mãe. No entanto, toda essa estabilidade desmorona quando seu irmão traz a namorada, Eva, para passar uma temporada no local.
É perceptível entender que o refúgio de Isabel transforma-se rapidamente em palco de mudanças inquietantes: Eva é o seu exato oposto — displicente, barulhenta e intrometida. Conforme objetos começam a desaparecer das gavetas e armários, a desconfiança de Isabel se intensifica e a raiva dá lugar a uma obsessão que cruza limites imprevisíveis.
O livro é estruturado e dividido em 3 partes, construindo uma tensão constante. Porém, a cereja do bolo inegavelmente fica na terceira parte, quando as datas e anotações reveladas no diário de Eva de Haas mudam completamente a perspectiva dos fatos, trazendo à tona o verdadeiro impacto do passado.
A atmosfera do romance carrega a sombra da Segunda Guerra Mundial e as feridas não cicatrizadas da sociedade holandesa. As lembranças da infância de Isabel revelam o receio e o trauma que moldaram a conduta de sua família:
“Os anos no leste, após o final da guerra, eram mais ruidosos: caos nas estações de trem, pessoas de rostos encovados perambulando pelas ruas com pés descalços. Era 1946 e a guerra havia terminado, mas a mãe de Isabel fechou todas as janelas às pressas e disse: Vão para o andar de cima, e Isabel e os irmãos precisaram subir as escadas enquanto a comida esfriava em seus pratos. Eles observaram da janela do quarto uma mulher zangada golpeando as portas e janelas da casa, gritando sem parar. Os gritos eram incompreensíveis, desesperados. Ao seu lado estava uma jovem que não fazia nada, que ficou parada de lado, com os braços cruzados, a cabeça baixa. Isabel perguntara a Louis em um sussurro: O que elas querem? E Louis, olhando através da janela enegrecida, dissera simplesmente: nossas coisas.”
A edição destaca-se visualmente por sua capa de uma beleza estética e melancólica ímpares. Estampando um detalhe da obra a óleo sobre tela de Jean-Baptiste Regnault (1754–1829)
À medida que o verão avança, o atrito constante entre as duas mulheres evolui para uma paixão visceral e incontrolável no romance sáfico A casa das memórias. A hostilidade inicial dá lugar a uma entrega que abala as estruturas rígidas do mundo de Isabel:
“Isabel pensou, e se virou, e Eva estava ali: uma silhueta quente em meio ao escuro. Isabel puxou ou foi puxada, um abraço afobado e desajeitado. O beijo aconteceu sem sua ciência, sem que compreendesse as etapas do decorrer: como cambalearam no meio do corredor em um momento e encontraram uma parede no seguinte; como Isabel veio a tocar a curva do maxilar de Eva, o polegar apoiado na junta ossuda quando Eva abriu a boca para ela, com um som falho; quando Eva cerrou uma mão sob o calor do cabelo de Isabel, quando se moveu contra seu corpo, ofegou contra seu rosto. Isabel se aproximou mais ainda. Queria empurrar Eva contra a parede. Queria forçar a si mesma para dentro de Eva também. O deslizar da língua de Eva fazia um pêndulo balançar em seu ventre, fazia alguma coisa soar feito um silvo. Eva se recusava a fazer silêncio, recusava-se a ficar parada, agarrava seu corpo e dizia hm, aah, sons vindos do fundo da garganta e mãos inquietas puxando, a boca quente aberta, tocando o lábio de Isabel com os dentes.”
O mistério atinge seu ponto mais alto no momento em que os segredos da casa e a verdadeira identidade da hóspede começam a se alinhar através do diáriu, caderno de anotações, desencadeando a grande reviravolta da história:
“Isabel enfiou o braço sob o travesseiro e puxou o livro de Eva. Acendeu a luminária de leitura. Queria ver a lista de novo. Queria se lembrar, queria sentir raiva de novo, queria deixar seu coração fazer qualquer coisa que não fosse devorar a si mesmo, encolher, encolher e encolher. Abriu o caderno e não havia lista. Um único nome desconhecido numa página em branco. Ela se sentiu confusa pela febre, turva, e então virou o caderno, abriu a capa de trás, e lá estava: a lista. A lista estava no fim, não no começo.”
Em suma, vale a pena ler A casa das memórias porque o livro é um drama histórico
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ALGUMAS CASAS ESCONDEM DESEJOS PROIBIDOS E VERDADES OCULTAS POR GERAÇÕES…
Holanda, 1961. Isabel leva uma vida de isolamento na antiga casa de sua família. Junto à rotina pacata, ela nutre um cuidado obsessivo pela ordem e pelos objetos que pertenciam à sua falecida mãe. Porém, toda essa estabilidade desmorona quando seu irmão traz a namorada, Eva, para passar uma temporada na casa, e o lugar, que antes oferecia proteção e segurança, torna-se palco de mudanças inquietantes.
Eva é o exato oposto de Isabel: displicente, barulhenta e um tanto intrometida. Em resposta, Isabel desenvolve uma obsessão alimentada pela fúria que a consome e, quando objetos começam a desaparecer de gavetas e armários, as suspeitas contra a indesejada hóspede se intensificam. Mas, à medida que o calor daquele verão aumenta, a tensão entre as duas mulheres se transforma em algo inesperado: uma atração perigosa que ameaça desenterrar segredos há muito ocultos naquela casa.
A Q&A with Yael van Der Wouden: canal The Booker Prizes conversou com a escritora Yael van der Wouden, finalista do Booker Prize 2024 com a obra A casa das memórias (The Safekeep – título original), sobre quem ela convidaria para um jantar dos sonhos e por que uma mudança de perspectiva contribui para um bom livro.
Assista no canal The Booker Prizes no YouTube:
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DANIEL MORAES, é jornalista por formação e bookaholic por vocação. Ttransformou seu amor pela literatura no projeto Irmãos Livreiros, uma vitrine para o mercado editorial brasileiro. Além de atuar nos bastidores do setor com foco em branding e eventos do mercado de livros.












