Vida em Marte: e eu com isso?: crônicas sobre o futuro, a tecnologia e os mundos que estamos deixando para trás

Em um momento em que bilionários miram foguetes para o Planeta Vermelho, Nurit Bensusan nos puxa pelo braço e nos faz olhar para baixo, para o chão que pisamos. “Vida em Marte: e eu com isso?”, publicado pela editora Estação Peirópolis, é o terceiro volume de uma coleção que se recusa a aceitar a ciência como algo isolado em laboratórios ou em órbitas distantes.

Através de crônicas afiadas, carregadas de ironia e inteligência, a bióloga Nurit Bensusan questiona a nossa obsessão por colonizar um deserto inóspito enquanto transformamos o nosso próprio oásis em um lugar cada vez mais difícil de habitar. É uma crítica social necessária sobre o escapismo tecnológico e a repetição de velhas lógicas coloniais fantasiadas de progresso.

A autora utiliza a ciência para nos devolver o encantamento com o que é comum. Ela nos lembra que vivemos em um ecossistema sustentado por seres que ignoramos diariamente:

“Um planeta cheio de seres que, quase como divindades, criam tudo e fazem do mundo um lugar convidativo para nossa espécie e para diversas outras, que desenvolveram um paladar para apreciar muito dos frutos desses seres. Além de depender das plantas como alimento, durante boa parte da história, a humanidade usou a madeira como material básico para construir praticamente tudo aquilo de que precisava: casas, móveis, ferramentas, instrumentos musicais, barcos. Usou o papel, derivado de plantas também, para plasmar seus conhecimentos, produzindo milhões de livros. Usou como combustível os restos dos seres vivos que ou eram plantas ou delas dependiam, para mover motores e transformar a vida da nossa espécie.”

Para reforçar essa raridade, a obra resgata uma reflexão clássica de Carl Sagan:

“Carl Sagan dizia que, na Terra, uma folha de grama é coisa normal, mas, em Marte, seria um milagre. Sim, seria. Sem atmosfera adequada, sem gravidade semelhante à nossa, as plantas dificilmente vicejariam em Marte. Mas, se pensarmos bem, uma folha de grama é também um milagre aqui. Um planeta, porém, com tanta vida e com tanta vocação para vida, leva-nos a esquecer quão rara ela parece ser no universo e quão única ela é, inclusive, aqui.”

Vida em Marte

O livro não é apenas um alerta ecológico; é um exercício de pensamento crítico sobre o tempo. Nurit nos instiga a perceber que o “futuro inevitável” de Marte é, na verdade, uma escolha política e narrativa.

“Nossas ações no tempo atual forjam o que será o futuro, mas isso quer dizer que decisões que foram tomadas no passado moldam o nosso presente. Isso vale também para a forma como decidimos contar a história do passado da humanidade. Cada vez mais fica evidente que houve e há muitas alternativas, muitos caminhos possíveis, e que poderíamos viver outros mundos, com outras prioridades e outras narrativas.”

As ilustrações de Caco Galhardo trazem uma camada extra de humor ácido e provocação visual, haja vista, Trump Cassino, Telas de Elon Musk e Meta em uma única ilustração, como também, o prefácio de Sidarta Ribeiro. Como bem destaca a Editora Peirópolis, a série busca reconectar o saber à vida das pessoas, combatendo a ideia de que o conhecimento científico deve ser inacessível ou voltado apenas para o mercado.

Este livro é indicado para quem buscam entender temas complexos como ecologia, astronomia e política sem o peso de textos didáticos maçantes, bem como para os que se sentem desconfortáveis com o discurso de ssalvação tecnológica e buscam argumentos críticos e bem fundamentados, ou seja, para leitores que desejam estimular o pensamento planetário.

Vale a pena ler Vida em Marte: e eu com isso? porque ela nos devolve a responsabilidade pelo agora. Em vez de nos prometer um bilhete para Marte, Nurit Bensusan nos oferece algo muito mais valioso: um motivo para ficarmos e preservarmos o que ainda temos. É uma leitura leve na forma, mas profunda no conteúdo. Recomendo.

LEIA TAMBÉM ESTA MATÉRIA:

Vida em Marte: e eu com isso?, está disponível na Amazon e nas principais livrarias do país.

Vida em Marte

O que a corrida espacial tem a ver com a vida que levamos ― ou deixamos de levar ― na Terra? Por que se fala tanto em colonizar um planeta inóspito, enquanto seguimos destruindo o único onde a vida já existe em abundância?

Neste terceiro volume da coleção E eu com isso? , Nurit Bensusan nos convida a refletir, com crônicas cheias de ironia, inteligência e crítica social, sobre a obsessão contemporânea com tecnologias salvadoras e escapismos futuristas. As ilustrações de Caco Galhardo acrescentam novas camadas de provocação e humor à obra, e o prefácio de Sidarta Ribeiro reforça o caráter urgente e profético do livro, que denuncia a repetição das lógicas coloniais no discurso de progresso.

Uma leitura essencial para jovens e adultos que querem pensar, de forma divertida e crítica, sobre os mundos que ainda temos chance de preservar.

Autodefinida como uma “ex-humana”, Nurit Bensusan adotou essa identidade diante dos descalabros da nossa espécie, canalizando sua energia para o que realmente importa: a biologia e as causas socioambientais. Em sua atuação profissional, ela equilibra o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à conservação da biodiversidade com pesquisas profundas sobre a história das paisagens e o uso do patrimônio genético, sempre valorizando os saberes tradicionais de comunidades locais e povos indígenas.

Como escritora e criadora, Nurit dedica-se à popularização da ciência, buscando conectar o conhecimento acadêmico ao cotidiano do leitor de forma direta e provocativa. É autora de obras como Vida em Marte: e eu com isso? (Editora Peirópolis), onde questiona os escapismos tecnológicos contemporâneos, e estende sua criatividade à oficina Biolúdica, desenvolvendo jogos educativos. Suas reflexões também ganham vida no blog Planeta Bárbaro e em colaborações com o Instituto Socioambiental (ISA).

A solidez de seu pensamento é sustentada por uma trajetória acadêmica interdisciplinar na Universidade de Brasília e na Universidade Hebraica de Jerusalém, acumulando graduações em Biologia e Engenharia Florestal, mestrado em Ecologia, doutorado em Educação e pós-doutorado em Antropologia. Essa vasta bagagem permite que ela transite com autoridade entre diferentes campos do saber, compartilhando suas inspirações e visões sobre o futuro do planeta em diversas plataformas, incluindo o canal da editora no YouTube:

ANTES DE IR, NÃO DEIXE DE LER ESTA RESENHA:

O horizonte – volume I

O horizonte – volume I

Em um mundo devastado, onde a esperança parece ter se esvaído, surge “O Horizonte”, publicado pela editora NewPop, o primeiro volume de uma série de mangá que promete encantar os leitores com sua narrativa emocionante e personagens cativantes.

ler mais

Comentários

Zona Desconforto

Zona Desconforto

‘Zona Desconforto’ oferece mais do que conselhos motivacionais; apresenta um roteiro prático para uma trajetória real de sucesso.

Europa Central

Europa Central

Em “Europa Central”, a doutora em história Janaína Martins Cordeiro nos entrega uma obra essencial, publicada pela Editora Contexto, que preenche uma lacuna fundamental na nossa compreensão da história europeia.

Verity

Verity

Verity, de Colleen Hoover, é um suspense psicológico que se desvia do estilo romântico que consagrou a autora, mergulhando em um enredo perturbador e avassalador.

Frankie

Frankie

Em ‘Frankie’, os autores alemães, Maxim Leo e Jochen Gutsch nos presenteiam com uma obra singular, que transita com maestria entre o humor e a tragédia, a solidão e a amizade.

O rio que me corta por dentro

O rio que me corta por dentro

‘O rio que me corta por dentro’ de Raul Damasceno, publicado pela Astral Cultural, é um romance tocante e profundo, que mergulha nas águas da saudade e da descoberta, revelando as cicatrizes e as esperanças de personagens inesquecíveis em um sertão que também pulsa vida.

Daniel Moraes

Daniel Moraes

Fundador do Portal Irmãos Livreiros

Escritor, editor, jornalista, comunicólogo e bookaholic assumido, criou do portal Irmãos Livreiros onde mantém atualizado com as novidades do mercado editorial.