Fim: reflexão sobre o envelhecimento, a morte e o sentido da vida

Em Fim, Fernanda Torres, atriz e escritora de talento singular, vencedora do Globo de Ouro e reconhecida por sua carreira multifacetada no teatro, cinema e televisão — incluindo seu aclamado papel como Eunice Paiva no filme ganhador do Oscar Internacional 2025, “Ainda estou aqui”—, nos entrega um romance visceral e melancólico, publicado pela Companhia das Letras. A obra não é apenas sobre o fim da vida; é sobre a vida que se fez, contada a partir da perspectiva de cinco amigos cariocas, todos no extremo da existência.

Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro são figuras muito diferentes — do hipocondríaco ao junkie, do bon vivant ao marido fiel. Eles partilham, no entanto, a limitação de horizontes, a consciência de que o sucesso, a realização e a serenidade lhes escaparam. O romance é um inventário arguto e, muitas vezes, divertido de frustrações: festas, casamentos desfeitos, excessos, arrependimentos.

O olhar da autora sobre a velhice é desprovido de clichês. Há graça, sexo — com o auxílio do Viagra de Ribeiro —, sol e praia, mas a narrativa é coberta por uma espessa tinta de resignação e melancolia. Ao redor dos protagonistas, circulam mulheres neuróticas, sedutoras e conformadas, e uma galeria de tipos cariocas frutos da arguta capacidade de observação de Fernanda Torres.

A morte, que dá o tom à narrativa, é tratada com um olhar de estranhamento pela ausência do luto tradicional. Álvaro, ao confrontar a naturalidade com que as pessoas lidam com a perda, reflete:

“Álvaro ouviu as palavras de Carlos, achou bonito o discurso, mas chocou-se com a naturalidade dos presentes. A morte nada tem de natural. Faltava a revolta, o desamparo, o luto de antigamente. Faltava o morrer de amor.”

Fim

A ironia e a complexidade emocional atingem o ápice na morte de Ciro, o Don Juan invejado. O impacto de sua perda em Maria Clara, uma das figuras femininas, ilustra como os fins podem gerar novos começos ou, ao menos, uma nova escala de valores:

“Maria Clara não demorou a ser liberada. Assinou papéis, deu cabo das formalidades, trocou de roupa e desceu a rampa até o ponto. Dormiu no trajeto pra casa. Dormiu em casa, dormiu a tarde toda. Guardava um segredo. Sonhou com Ciro. Trepava com ele, olhava-o dormir, conversavam, eram amantes. Acordou bem, diferente. Havia matado alguém. Executara o ato heroico, dera o tiro de misericórdia, algo da dimensão do sagrado, do divino. Era uma mulher especial. Casar ou não, ser isso ou aquilo, servir café nas alturas, ou cuidar de feridas aqui embaixo, que diferença fazia? Maria Clara não se guiava mais pelo cotidiano, sua medida era o eterno. No dia seguinte, vestiu o melhor luto, subiu no salto, se esmerou na maquiagem suave e foi dar adeus ao maior acontecimento de sua vida.”

Gostei deste livro porque Fernanda Torres consegue entregar humor sem superficialidade, lirismo sem cafonice e densidade sem chatice. Fim é uma obra-prima de observação social e psicológica, que usa a inevitabilidade do fim para iluminar a beleza e a feiura da vida que teimamos em levar.

Este livro é indicado para leitores de ficção brasileira contemporânea, no qual a obra é um retrato perspicaz da classe média carioca, bem como para quem aprecia a reflexão sobre o envelhecimento, a morte e o sentido da vida, afinal a escrita de Fernanda Torres é sofisticada, envolvente e profundamente humana.

Fim é um romance que cumpre a promessa de ser completo: tem humor, melancolia, crítica social e uma rara profundidade emocional. Escrito por Fernanda Torres — autora já consolidada e com uma trajetória de sucesso global —, o livro, publicado pela Companhia das Letras, é um espelho da vida em sua nudez, um lembrete agridoce de que, no final, tudo o que nos resta é o inventário do que fomos.

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King e as Libéluas”, está disponível na Amazon e nas principais livrarias e e-commerces do país.

Fim

Kingston James é um garoto de doze anos e tem certeza de que seu irmão, Khalid, virou uma libélula. Apesar de Khalid ter morrido inesperadamente e se transformado em uma libélula do bayou da pequena cidade de Lousiana, ele ainda se mantém sempre próximo de King, fazendo visitas em seus sonhos.

Lidar com tudo isso seria mais fácil se o garoto pudesse buscar o apoio de seu melhor amigo, Sandy Sanders — mas, como último conselho ainda em vida, Khalid disse a King para romper a amizade com Sandy, pois havia descoberto que ele poderia ser gay: “Você não quer que ninguém pense que você é gay também, ou quer?”.

Mas quando Sandy desaparece, colocando toda a cidade, a sua procura, King descobre que seu ex-melhor amigo está em uma barraca no seu quintal, se escondendo de seu pai abusivo. Assim, os dois começam uma aventura, construindo um paraíso privado no bayou, entre as libélulas. Quando a amizade de Sandy e King é retomada, ele é forçado a confrontar questões sobre si mesmo e sobre a morte de seu irmão.

King e as libélulas explora raça, sexualidade, luto e identidade de uma forma íntima e próxima aos jovens, com uma lição de amor e libertação.

Fernanda Torres disseca a sua obra Fim, série e livro que trata da finitude e realidade da vida no programa Roda Viva desta semana, onde entrevista a atriz Fernanda Torres, criadora da série Fim, no Globoplay e do livro de mesmo nome.

Ela é questionada sobre a obra na abertura do programa. O que deu a ela a necessidade de escrever confrontar de maneira crua as expectativas da juventude com a realidade da vida? Como foi a escolha dela para a representação feminina no livro e na obra visual?

Fernanda explica que a série aconteceu por ser uma encomenda do diretor Fernando Meirelles, que queria uma crônica sobre a terceira idade.

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