Vaga Memória: A fotografia dos afetos e a matéria fugidia da vida

Em Vaga memória, a poeta e coordenadora da Biblioteca Madrinha Lua, Ana Elisa Ribeiro, costura o tempo, esse fio frágil e valioso aos laços amorosos e familiares que nos sustentam. Caminha entre o que escapa das cenas cotidianas e o que permanece colado às lembranças, tal e qual uma fotografia dos afetos.

A poesia de Ana Elisa possui uma perspicácia única para exporar as nuances e as pequenas armadilhas das convenções sociais e domésticas, revelando críticas sutilezas no cotidiano:

“nas festas-surpresas para as esposas ainda sobram pratos para que ellas lavem…”

O livro transita com maestria entre a leveza da infância e a densidade de perdas irreparáveis. A memória, muitas vezes frágil como negativos fotográficos expostos ao tempo, ganha contornos de melancolia ao tratar daquilo que se apaga com a partida dos mais velhos:

“negativos contra a luz
vaga memória em preto e branco
de pessoas fantasmas
esquecidas nas caixas de retratos
que ninguém encontrou
depois que a matriarca morreu e levou consigo
toda a memória da família”

Essa reflexão sobre a finitude atinge seu ápice em momentos de dor cortante, onde a poesia se faz visceral ao lidar com a ausência repentina e a saudade de quem se foi antes do tempo:

“mandei abaixar abaixa, abaixa!
quando olhei para trás,
vi o sangue na cabeça dela
no banco do carro
não teve tempo de dizer
pai esvaiu-se sem avisar
e eu a preferi
quando era desobediente”

Vaga memória

A edição se destaca também por sua identidade visual: a capa exibe uma arte abstrata vibrante e geométrica, com linhas sinuosas, formas geométricas em tons de azul, roxo e rosa, que compõem uma estética moderna e dinâmica. Esta obra faz parte da coleção Madrinha Lua, título de um dos livros da grande poeta mineira Henriqueta Lisboa, autora que inspira esta Biblioteca de poesia contemporânea brasileira. Aqui estão reunidas várias escritoras e suas vozes líricas diversas, com curadoria da própria Ana Elisa Ribeiro. A iniciativa é da editora Peirópolis, que já publica a obra completa de Henriqueta Lisboa.

Vale a pena ler Vaga memória, publicado pela Peirópolis, porque a obra oferece um mergulho sensível e inteligente nas complexidades dos afetos familiares, na passagem do tempo e no que decidimos guardar. Ou esquecer. Com uma escrita que equilibra humor, perspicácia e profunda emoção, Ana Elisa Ribeiro transforma o cotidiano em matéria poética indispensável, tocando o leitor de forma genuína e inesquecível.

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Vaga memória

Em Vaga memória, a poeta e coordenadora da Biblioteca Madrinha Lua costura o tempo, esse fio frágil e valioso, aos laços amorosos e familiares que nos sustentam. Caminha entre o que escapa das cenas cotidianas e o que permanece colado às lembranças, tal e qual uma fotografia dos afetos.

Os versos de Ana Elisa atingem rapidamente os leitores: inteligentes, bem-humorados e perspicazes, fazem rir e emocionam ao revelar as conversas entre uma mãe e seu filho, o frescor da infância diante das incertezas do adulto, os embaralhamentos do amor, a passagem inegociável do tempo e a proximidade da morte, que torna vaga toda memória possível e transforma todos nós em antepassados.

O prefácio de Mariana Ianelli destaca a graça da poesia que esta poeta mineira consegue captar tão bem ao provocar novos olhares para o “pretensamente já visto” e transfigurar em cada poema a matéria fugidia da vida. E o posfácio de Renata Farhat Borges ressalta a parceria da autora com a editora Peirópolis, ao contemplar o cenário da poesia feminina e contemporânea brasileira como meio de também celebrar a memória de outra poeta mineira, Henriqueta Lisboa.

Neste videopoema, Adriane lê Regina, que faz parte da Madrinha Lua, o título de um dos livros da grande poeta mineira Henriqueta Lisboa, autora que inspira esta Biblioteca de poesia contemporânea brasileira. Aqui estão reunidas várias escritoras e suas vozes líricas diversas. A curadoria é da poeta Ana Elisa Ribeiro, autora de Vaga Memória. 

A poeta mineira Adriane Garcia, muito ativa nas redes sociais e por sua militância literária, é uma voz lírica que celebra a natureza em sua relação tensa com a humanidade – por culpa nossa, claro.

Nas palavras da poeta Ana Elisa Ribeiro, coordenadora da coleção, “Não é de guerra, mas é de tensão, de crítica, de ironia, de denúncia. Tem um calor de debate, de diálogo firme. Com ela não se nina, mas se desperta”.

Assista no canal da Editora Peirópolis, no YouTube:

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Fundador do Portal Irmãos Livreiros

Escritor, editor, jornalista, comunicólogo e bookaholic assumido, criou do portal Irmãos Livreiros onde mantém atualizado com as novidades do mercado editorial.